Já faz um tempo que descobri em mim uma paixão pelas palavras que vai além da vontade de escrever. Gosto de ver como elas são escritas, como são utilizadas, seus significados e suas origens. E isso vale pra expressões também. Cê já parou pra pensar na origem de “vale a pena” ou “guardado a sete chaves”?

Grande parte desse apreço pelas letras vem da já mencionada vontade de escrever e da curiosidade inerente. Mas, uma parte considerável se encontra na tentativa de abolir do vocabulário alguns preconceitos, como os xingamentos machistas, tão facilmente usados no dia a dia, e as expressões racistas.

“A coisa tá preta” é uma que sempre me incomoda. Ela não é tão “criminosa” quanto “tinha que ser preto”, mas certeza que são da mesma família, farinha do mesmo saco. Algumas são usadas sem pensar mesmo, costume, tradição e até aquelas piadas sem graça que só fazem perpetuar o racismo pelas gerações.

Por isso, acho bem válido e interessante quando o significado dessas expressões é revertido. Por exemplo, quando a Sara Donato e a Issa Paz batem na gordofobia se intitulando Rap Plus Size; ou o Poeta Sérgio Vaz, em toda sua maestria, desmistificando a “magia negra”; ou quando o Emicida quer “devolver o orgulho do gueto e dar outro sentido pra frase ‘tinha que ser preto'”.

Até a própria “a coisa tá preta” já virou algo diferente na voz do Rincon Sapiência. Com a música, o rapper “busca ressignificar esta expressão idiomática que, junto a outros ditos populares, acaba por diminuir a autoestima do povo negro, carente de referências positivas relacionadas à cor de sua pele”.

Foto: Gregg Segal/TIME
Foto: Gregg Segal/TIME

E isso é, basicamente, o que a série “Luke Cage” faz também. “Luke Cage” funciona muito bem na ideia de dar um outro significado pra boa parte das expressões racistas que temos por aí. Não é só que o herói fodão indestrutível “tinha que ser preto”, mas ela é recheada de personagem negros, sem a estereotipagem tradicional.

E não é um filme cult, que pode ser incrível, mas quase ninguém vai assistir, ou um do Spike Lee, é a porra da Marvel junto com a Netflix, duas das maiores empresas do entretenimento hoje. E a série ainda chega num momento importantíssimo, no qual crescem nos EUA os protestos com o “Black Lives Matter”.

Aliás, a própria criação do personagem, lá na década de 70, também chegava num momento importante. Era a época do “blaxploitation”, um movimento que buscava “explorar” a imagem do negro, principalmente no cinema. O movimento é bastante questionável: enquanto tinha o lado positivo de destacar a imagem do negro na arte e abrir portas para vários artistas negros, o fazia, muitas vezes, com personagens estereotipados e/ou com produções comandadas por brancos.

“Luke Cage foi o primeiro super-herói negro a estrelar o próprio quadrinho”, explicou ao Brasil Post o jornalista Sean Howe, autor do livro “Marvel Comics: A História Secreta”. É óbvio que o interesse da Marvel com isso era muito mais pelo lado financeiro; é óbvio que o interesse da Marvel (e, agora, da Netflix também) continua sendo financeiro. Mas, isso não significa que a representatividade deva ser esquecida.

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Quantos outros personagens negros de destaque você viu por aí? Não sei o que é pior, se é ter nenhum ou se é tê-lo, mas tão estereotipado que dá até nojo. Luke Cage é nada disso; é o personagem principal, é considerado um super-herói, embora ele não queira muito a fama, sem “gírias de mano”.

Sem contar que, junto com ele, vem também uma detetive negra com incríveis habilidades pra ler a cena do crime e destruidora no basquete. Diferente do que muitos poderiam pensar, Misty Knight não é a personagem feminina comum, criada apenas pra fazer par com o herói. Ela é uma heroína completa por si só e ainda vai fazer muito “estrago”.

E, pra mim, uma das paradas mais interessantes é que, em meio a inúmeros protestos contra a violência policial contra negros, nos Estados Unidos, você tem ali em destaque um personagem que não é nem afetado pelos tiros da polícia. E não é nem que ele tá com uma roupa de super-herói ou qualquer coisa assim, é um cara andando como outro qualquer, de moletom e capuz. Posso tá viajando, mas achei essa uma mensagem poderosíssima.

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Pra nós, fãs de hip hop, a série fica ainda mais interessante. Além do quadro do B.I.G. na parede, que proporcionou esse take maravilhoso, tem a trilha sonora (co-criada pelo Ali Shaheed Muhammad, integrante do A Tribe Called Quest) que influencia diretamente cada episódio, até com o Luke recorrendo algumas vezes ao seus fones de ouvido, principalmente pra escutar Wu Tang Clan, e até aparição emocionada do Method Man.

Aliás, o integrante do Wu Tang ainda aparece sendo entrevistado pelo Sway (!!!) e mandando uma rima, “Bulletproof love” (“Amor à prova de balas”, minha tradução), em homagem ao seu ídolo.

Enfim, “Luke Cage” coloca os pingos nos “i”. É a rara produção com herói negro que não precisa recorrer a estereótipos ridículos pra se destacar, tanto popularmente quanto nas críticas. O “black power” nunca fez tanto sentido antes. A coisa tá finalmente preta de verdade!

Não perca mais nenhum post!

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