Malcolm X é um dos maiores nomes da luta dos negros pelo direito de igualdade nos Estados Unidos. Provavelmente, o segundo maior, logo atrás do Dr. Martin Luther King Jr. Aliás, os dois são quase sempre lembrados juntos não só por terem vivido na mesma época, mas por suas diferentes abordagens: este prezava pelo protesto pacífico, enquanto aquele não tinha problema algum em mostrar sua agressividade.

Entretanto, Malcolm não era, de maneira alguma, uma pessoa violenta. O seu discurso inflamado e agressivo era oriundo de uma história violenta; era quase como auto-defesa. Seu pai havia sido morto por supremacistas brancos ainda quando ele era criança. Cresceu em meio à criminalidade e participou dela em alguns momentos, até ser preso.

E foi preso que, ironicamente, se libertou. Faz um certo tempo que li “The Autobiography of Malcom X – as told to Alex Haley” e não lembro cada detalhe, mas gosto assim. Gosto de deixar as ideias marinarem. Normalmente, o que sobra é o que realmente marcou e, geralmente, é sobre isso que eu deveria escrever.

Enfim, o que mais me chamou atenção foi o quanto Malcolm X se permitiu mudar. Ainda mais quando cê vê a cena atual; quando cê vê até lendas como Mano Brown e o Racionais serem criticadas apenas por se tornarem mais comerciais. Se Malcolm vivesse nos dias de hoje, estas mesmas pessoas que criticam o Racionais provavelmente o chamariam de vendido.

O mais vendido, na verdade.

Quando Malcolm foi preso, ele era praticamente analfabeto; leu todos os livros que conseguiu colocar as mãos enquanto esteve na cadeia. Quando Malcolm foi preso, ele era antirreligioso; viria a se tornar um dos principais porta-vozes da Nação do Islã nos Estados Unidos, um “movimento negro, espiritual e nacionalista”.

Ele começou a se corresponder diretamente com Elijah Muhammad, o líder da Nação. O discurso inflamado contra o homem branco, o transformando no demônio, fez todo sentido para Malcolm, devido ao seu passado.

Alguns anos depois, quando fora um dos principais responsáveis pela expansão da Nação e um dos mais populares nomes do movimento negro nos Estados Unidos, ele viaja, pela primeira vez, à Meca (cidade da Arábia Saudita considerada a mais sagrada do mundo para os muçulmanos).

Malcolm volta transformado. Conheceu outros exemplos de homens brancos e já fazia alguns parenteses antes de torná-los todos demônios. Passou a admitir que Elijah Muhammad havia deturpado o conceito de islamismo e após alguns desentendimentos se afasta por completo da Nação do Islã. Não muito tempo depois, em 21 de fevereiro de 1965, Malcolm X foi assassinado com 16 tiros por três membros da organização.

É verdade que nem deu muito tempo de ele implementar essa mudança em seus discursos e no dia a dia, mas, imagine você, se um rapper, nos dias de hoje, faz essa “volta de Meca”. Se o rapper fosse tão popular quanto Malcolm, é bem provável que já tivesse gente esperando com faixas no aeroporto.

Após uma viagem e alguns acontecimentos (provavelmente não tão sabidos pelo público em geral), Malcolm contradiz todos os discursos que o tornaram conhecido. Se vendeu? Quis ganhar agrados dos brancos? Não, ele simplesmente se permitiu receber novos fatos com a mente aberta; ele teve a coragem de mudar de opinião.

E fez isso mais de uma vez. Quantos de nós conseguiríamos? Muitas vezes, preferimos continuar no erro do que assumi-lo. Não só temos dificuldade em assumir que erramos, a ponto de ter vergonha de fazê-lo, como também temos preguiça de mudar e aceitamos qualquer desculpa, qualquer opinião meia-boca pra nos mantermos ignorantes.

Até por isso, Malcolm X é muito mais utilizado como exemplo do que o Dr. Martin Luther King Jr, principalmente por rappers. King foi, discutivelmente, o maior responsável pelo “resultado positivo” do Movimento dos Direitos Civis, mas Malcolm teve uma vida muito mais próxima a dos rappers.

Malcolm esteve no que ele mesmo consideraria o fundo do poço e deu uma volta grandiosa por cima. Não tinha muita estrutura familiar, não teve muita escolaridade e convivia diretamente com o crime. A grande maioria dos rappers pode se relacionar facilmente com pelo menos uma dessas questões. Sem contar que seus discursos de combatente eram muito mais próximos às rimas do que o pacifismo de Martin, embora o rap seja uma forma pacífica de defesa.

É claro que é possível lançar uma música e quase 30 anos depois ela ainda fazer todo sentido; como é possível você regravá-la sem precisar mudar uma vírgula do seu discurso. Mas, se você precisar mudar algo, você pode fazer como o Criolo, que atualizou alguns versos da “Vasilhame”, ou simplesmente passar a aplicar a mudança em seu dia a dia, nos seus atos e opiniões.

É bem possível que um monte de fã de rapper, aqueles seres que curtem mais o rapper favorito e sua banca do que o rap em si, te chamem de vendido ou modinha ou qualquer coisa do gênero, mas a real é que a opinião destes tá valendo nada além de views no Youtube.

Tenha a coragem de Malcolm X e se permita mudar. Repense, reflita, revolucione.

Não perca mais nenhum post!

Qual a sua opinião?

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*