Nas redes sociais, o Vai Ser Rimando se tornou até que bem conhecido por fazer brincadeiras com discos que estão sendo anunciados há muito tempo, mas ainda não saíram, como (e quase exclusivamente) o VVAR, do Marechal.

A tiração é muito mais uma questão de espera ansiosa pelo trabalho do que uma reclamação. Afinal, o lançamento de um CD é algo bastante crucial para o arista, muitas vezes um divisor de águas em sua carreira.

É claro que o tempo de produção não é diretamente proporcional à qualidade com que o disco será lançado, mas é muito mais provável que um maior tempo resulte em algo mais bem feito do que um produzido apressadamente.

“Sabotage” é o exemplo perfeito de como a espera, por mais longa que seja, pode realmente valer a pena. Produzido ao longo dos anos desde o assassinato do rapper em 2003, em uma parceria da família do Sabotage com o Instituto, dos produtores Rica Amabis, Tejo Damasceno e Daniel Ganjaman, o disco se tornou o mais importante da década.

1. Por causa de toda mitologia que ronda o Sabotage

Sabotage, definitivamente, não era um artista comum. Além do seu talento absurdo, ele também viveu uma vida bastante misteriosa. Mesmo revelando 23 coisas que não sabíamos sobre o rapper e até 12 versos inéditos, Toni C., autor da biografia oficial, conta que mesmo após o livro ainda há muita coisa a ser esclarecida sobre ele. Algumas das quais nunca saberemos.

Sabotage lançou, em 2000, o CD “Rap é compromisso!”, uma obra ainda de grande destaque no cenário. Ele atuou em filmes, produziu pra trilha sonora, ganhou prêmios internacionais. Ele estava muito à frente do seu tempo e existe, pra mim, uma linha claríssima entre o que era o rap antes e o que ele se tornou depois de Sabotage.

É óbvio que o rapper contribuiu muito para todo o status que atingiu, mas é inquestionável que boa parte da mitologia criada em volta do seu nome veio após a sua morte, da maneira como ela aconteceu, no auge de sua carreira; algo bem próximo do que aconteceu com nomes como Tupac e Biggie.

2. Por causa da espera de treze anos

Quando você alcança um status do tamanho do alcançado pelo Sabotage, todos os holofotes se voltam pra você. Todo mundo quer saber cada um dos seus passos, por onde cê tem andando, quando vai lançar o próximo trabalho.

Sim, o rapper morreu, mas desde que foi dito que ele estava gravando o álbum na semana da sua morte e mais tarde com a confirmação de um disco póstumo, a comoção na cena foi absoluta.

A falta de detalhes sobre a produção, o constante adiamento e, mais recentemente, os trechos revelados resultaram, obviamente, numa expectativa elevada a números incalculáveis. Tornou-se um dos discos mais esperados do rap brasileiro no dia que foi confirmada a sua existência.

3. Por causa da merecida recompensa à família

Sabotage morreu no auge da sua carreira. Embora tenha lançado um disco de sucesso, atuado em filmes e feito vários shows, ele não chegou a colher quase nada das sementes que plantou. Pelo menos, não financeiramente.

Como consequência, sua família ficou praticamente abandonada durante muito tempo. Entretanto, nos últimos anos, vários itens têm sido lançados em sua homenagem, o que deu nova visibilidade à sua arte e a merecida recompensa, principalmente financeira, mas também da grandeza de sua obra.

Além do já mencionado livro da sua biografia oficial, que teve parte da renda destinada à mulher e aos três filhos deixados pelo rapper, foram realizados alguns shows, alguns documentários foram lançados e também uma edição comemorativa de 15 anos do CD “Rap é compromisso!”.

“Essa é a maneira que encontramos para fazer com que a família do Sabotage finalmente passe a receber os direitos autorais relacionados à música dele na internet”, contou o Diretor de Marketing da ONErpm, Márcio Cruz, em entrevista ao blog Cultura de Rua, do site da Rolling Stone Brasil.

E, por fim, pra fechar essa era com chave-de-ouro, o disco “Sabotage”, no qual até os artistas envolvidos aceitaram destinar seus cachês à família do rapper. Se você não quiser comprar o disco no formato físico quando sair ou não quiser adquirir pelo iTunes, entendo, mas o mínimo do mínimo que você deveria fazer é procurar sempre consumi-lo pelos canais oficiais. O rap agradece.

4. Por causa da produção impecável

Eu não vou comentar cada beat, cada arranjo ou qualquer coisa do gênero porque chego nem perto de ter o conhecimento necessário para tanto. Embora, qualquer idiota possa ver que o que foi feito em “País da fome (Homens animais)” pra complementar os versos geniais do Sabota é simplesmente de outro mundo; DJ Cia arrepiou com o bagulho do início ao fim.

Mas, o que eu gostaria de ressaltar é o cuidado tido com cada etapa do longo processo que foi colocar esse disco na rua. Assim como a vida do Sabotage, o bagulho foi louco.

E, mesmo com o álbum pronto, em 2015, era preciso também encontrar alguém que pudesse lançá-lo da melhor forma, com melhores retornos tanto para a família quanto para a própria imagem do rapper. O Spotify ofereceu isso e a ideia da audição com vários convidados ilustres do hip hop brasileiro transmitida ao vivo foi incrível.

É um momento que fica pra história, não só pelo ineditismo, mas pela reunião de nomes tão importantes da cena pra escutar juntos e exaltar o maestro. Energia incrível. Aliás, imagina como foi juntar boa parte desses nomes na criação dessa obra, gravá-los em meio a versos já existentes do Sabotage e encaixar tudo isso perfeitamente.

A própria escolha também não deve ter sido fácil. Eles poderiam ter escolhido praticamente quem quisessem porque, convenhamos, quem não gostaria de participar disso? Mas, optaram, de forma geral, por trabalhar com nomes que o próprio rapper já havia “flertado”.

Isso vale pras produções também. O disco tem uma diversidade incrível, bem a cara do Sabota, bem a qualidade que o manteve relevante por todo esse tempo, mesmo após a sua morte. E pensar que a voz dele já estava gravada em todas as faixas, ou seja, sim, o desgraçado conseguia rimar com qualidade em cima de qualquer coisa!

5. Por causa da despedida de uma lenda

Quando cobramos o Marechal pra lançar o seu primeiro disco, o Racionais pra lançar o próximo ou qualquer coisa do gênero, não passa, de fato, pelas nossas cabeças que estes discos nunca virão. Tem fã que pede nova música ou novo álbum no mesmo dia que a última parada foi lançada.

Com o Sabotage, isso não acontecerá. É bem provável que este disco contenha os últimos versos que iremos escutar do Maestro do Canão em toda nossa vida. Enquanto escrevo, eu penso o quão foda é isso. Ainda mais quando este disco comprovou toda aquela genialidade monstruosa que era atribuída a ele. Todo mundo escutará a última faixa querendo mais.

O ponto positivo é que essa genialidade toda joga a nosso favor. Se em 2000, Sabotage lançou um álbum que é atual ainda pros dias de hoje, imagina até quando escutaremos o novo trampo, que foi feito com muito mais recursos técnicos, achando que foi lançado ontem, mesmo que suas linhas tenham sido gravadas lá atrás.

Arrisco a dizer que ele está muito mais completo ainda como músico nesta obra. Se “Rap é compromisso!” é um clássico inquestionável do rap brasileiro, “Sabotage” o é da música brasileira; arrisco aqui novamente a dizer que não é só o mais importante da década, mas também um dos melhores.

Sabotage era querido pra caralho. Por onde passava, contagiava todo mundo com seu jeitão, sempre fazendo as pessoas sorrirem. Ele levou muito disso pro rap; ensinou muito peixe grande, mesmo ainda em início de carreira, e deixou isso como um importante legado. Ele tava à frente do seu tempo. Morreu no auge da sua carreira, é verdade. Teria feito ainda mais coisas grandiosas se ainda estivesse vivo, sem dúvida. Mas, de qualquer jeito e de forma irretocável, foi eternizado. Um trabalho que fez jus à espera e à lenda.

Independente de onde esteja, tenho apenas uma certeza: ele, definitivamente, está em um bom lugar agora; no bom lugar tão sonhado em vida, construído não só por ele, mas através do nosso sonho também, sonho este que se sonhou junto.

Não perca mais nenhum post!

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