O hip hop morreu? O rap evoluiu? E a relação com a mídia? Nova ou velha escola? Cê pode fazer um documentário inteiro com essas perguntas se cê deixar rappers responderem ou soltar em qualquer roda de fãs de 20 anos pra cá e ver as pessoas se matarem. Não duvide, elas vão tentar. Principalmente se cê tiver coragem de soltar essa última.

Mesmo que hoje MCs lancem música nova quase que uma vez por semana, é raro cê ver uma parceria entre esses dois grupos, essas duas “escolas”. E, quando acontece, geralmente são da mesma produtora ou algo assim. Não dá pra entender qual a dificuldade, mas ela existe.

E isso acaba refletindo nos fãs, que tomam um lado e aí já viu: ficam cegos pra tudo que acontece. A principal discussão acaba sendo sobre popularidade. A maioria das pessoas não consegue assimilar essa parada de rap de raiz e o mainstream; não conseguem entender que um artista pode sim ganhar destaque sem perder a qualidade. Pra muita gente, o Racionais, o grupo que praticamente “inventou” o rap no Brasil, não representa mais só pelo fato de ter se tornado mais comercial.

Uma grande besteirada e eu odeio isso, odeio essa discussão porque ela é completamente idiota e irracional. Mas, hoje retornei a ela porque tenho uma boa notícia: encontramos um meio-termo que todos podem concordar: The Get Down. O bagulho é louco mesmo.

A série resolveu contar uma estória sobre as origens do hip hop, como tantos outros trabalhos já fizeram. Mas, não parece tomar partido. Entre os que discutem se devemos falar da pobreza ou das festas nas quebradas, as block parties, eles decidiram mostrar os dois com igual profundidade.

É superficial? Óbvio, ainda é uma série fictícia, não um livro ou um documentário. Mas, é justa. Até porque, com Nas, Kurtis Blow e Grandmaster Flash, entre outros, por trás pra “acertar as coisas”, quem vai questionar a veracidade dos fatos. Ao mesmo tempo, o diretor é o Baz Luhrmann, o mesmo de  “Romeu + Julieta” (1996), “Moulin Rouge: Amor em Vermelho” (2001) e, o mais recente, “O Grande Gatsby” (2013), que elevou o jogo de um jeito incontestável.

O lúdico que envolve The Get Down é um dos seus pontos altos. O hip hop precisava disso. Você não pode contar uma história fiel sobre uma cultura que faz muitos acreditarem que salvou vidas sem despertar sonhos nas pessoas; sem transportar essas pessoas para outros lugares. Embora não exista um Shaolin Fantastic de verdade e aquela parada de desafios do mestre para o pupilo pareça bastante exagerada, é uma fantasia que encaixa perfeitamente na ideia que o hip hop sempre criou na minha cabeça.

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É a cultura que pode tudo. “O hip hop não inventou coisa alguma. O hip hop reinventou tudo”, como definiu incrivelmente bem o Grandmaster Caz, no documentário “Something from nothing”. Aliás, essa também é uma frase forte: “something from nothing” ou “algo a partir de nada”. O hip hop é a representação perfeita daquela flor no lixão que o Brown cantou.

A pobreza tá ali, você vê ela, sente, é palpável. Mas, não pode só falar dela porque existe a dança também, a pintura, as histórias contadas de formas que te fazem viajar. Sempre foi assim. The Get Down tem cores lindas, uma fotografia fodida e toda uma ambientação incrível não só porque o diretor é um monstro, mas porque esse é o hip hop. Em meio à discussão do preto e do branco, o hip hop sempre foi colorido pra caralho (desculpa, Qualy).

Pra quem tava acostumado com produções feitas nas coxas, por uma ou outra pessoa tirando dinheiro do próprio bolso, fazendo todos os papeis, The Get Down foi lançada como a série mais cara da história da Netflix; trouxe mitos da cultura, a rua mesmo, mas levou também um diretor/produtor com outras visões, uma pegada bastante teatral e grandiosa.

A história é contada do ponto de vista de jovens não só por que o hip hop começou com jovens ou porque é uma cultura inovadora e com essa pegada juvenil, mas por que isso também vende, é mais popular. E se os novinhos não tão muito interessados em saber quem foi Grandmaster Flash, Afrika Bambaataa ou Kurtis Blow, fizeram chamadas com os caras que tão em alta hoje por aí e atraíram ainda mais essa galera.

The Get Down é certeira. É fiel à realidade onde precisa ser, mas é lúdica e te conta uma ótima estória. Foca no hip hop, mas é muito mais que isso e tem espaço pra todo mundo. Faz os caras de 30 anos de caminhada baterem palmas ao lado dos que chegaram ontem e isso é raríssimo.

E só foram 6 episódios, meia temporada. Ainda tem muita coisa incrível nessa história que queremos ver sob o olhar do quinteto de “irmãos”. Espero que a suposta baixa audiência não os faça desistir (os outros seis da primeira temporada parecem já estar confirmados, embora sem data de lançamento ainda). Acredito que não desistirão. Afinal, olha pra história do hip hop: já falamos só com as paredes, não é agora que falamos pra bilhões de pessoas com tamanha qualidade que uns números vão nos fazer recuar.

Dica de última hora: se você ainda não assistiu à série ou vai reassistir em algum momento, vamos jogar um jogo: reúna seus amigos e amigas, dê quatro linhas da segunda parte da música “Gil Scott Heron”, do Marcello Gugu, para cada um(a) e faça tipo um bingo. Cê não precisa contar só os artistas, pode ser as frases ou até objetos como armas e flores. À medida que os itens ou referências destes vão aparecendo na série, cê risca nas suas linhas; a primeira pessoa que riscar tudo, ganha (de preferência, dê uma quantidade semelhante de itens pra cada pessoa, vamos brincar direitinho).

Não perca mais nenhum post!

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